15 de janeiro de 2014

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Sabe, relutei muito pra escrever este post. Me perdoem os erros, decidi que seria assim, feito um vomito. Fui lá agora pegar meu gato Cao que miava alto do nada. Já fez isto muitas vezes, enfiei ele no ombro e trouxe pra cá, feito um pacotinho. Ele ronrona, porque é isto que ele espera que eu faça, salve ele do nada. Trago pra cama do quarto e começo a escrever. 

Meu último ano foi muito difícil, algumas pessoas sabem, outras preferiram se manter a distância. Não estou aqui pra questionar nada nem ninguém, falo de sentimentos. Doenças e a falta de tempo preencheram 98% da vida. Quando vi minha companheira dos últimos 16 anos definhando, junto com meu gato Ruan Disney as pernas simplesmente amoleceram, como num filme. O coração começou a bater descompassado e a doer. Não era porque estava partido, era dor mesmo. Eu não respirava, eram curtos suspiros. faltava ar. 

Não escolhi ser forte, acho que ninguém escolhe, simplesmente não existe pra onde correr. Você tem de ficar, até o fim.

em 2013 fui invadida, por problemas renais, doenças da pulga, do carrapato, ferimentos por estresse, acordar 4h30 da manhã, ver alguns se distanciarem, outros se aproximarem. VIDA! é assim. Aprendi a dizer adeus aos poucos. Entendi que o processo era inevitável, mas a gente nunca espera que termine.

Na última terça fui na veterinária visitar minha cachorra, trouxeram ela pra mim, fiquei soznha num banquinho de madeira conversando, beijei muito, disse o quanto amava, que ela fosse em paz, que estava tudo bem. Minha avó estaria esperando com guloseimas, e que a gente um dia se encontrava. no outro dia, fui lá de novo. Sim, poderia chorar, gritar, desesperar…longe, nunca perto. Ela tinha piorado, a respiração, mais ofegante que nunca, desta vez foi dentro da clínica, não dava mais pra traze-la pra fora. meia hora, beijando. É como se uma onda de paz, tivesse passado por mim não queria mais dizer nada apenas abraçar, enquando fazia isto, ela dormiu nos meus braços. Fui pra casa e dormi bem pela primeira vez em dias. Acordei às 7h com o telefonema da plantonista da clínica, avisando que tinha se ido…nos dissemos adeus e até breve, muitas vezes. Vai em paz minha filha! você foi minha companheira de todas as horas. Veio em fevereiro de 2010 pra ficar comigo, e se sentiu em casa, mesmo estando num apart hotel distante. Estava em casa porque estava comigo. E assim foi. 

Tão pouco tempo depois, na terça seguinte, me vejo na mesma situação, com meu gato Ruan, Ruan Disney..problema renal crônico. Convivo com isto há 5 anos. Desde um pouco antes de sair de Porto Alegre. A vida tinha se tornado uma montanha russa, de internações, remédios, soro..me tornei ma consumidora voraz de remédios e tele-entregas 24 horas. E os remédios que não encontrava? Nossa! conheço todas as farmácias hospitalares de POA ao RJ. Conseguir soro ringer lactado por exemplo, é uma façanha..sim, eu aplicava em casa. Construi com uma luminária, um daqueles suportes de soros hospitalares. Tremia a mão cada vez que aplicava…acho que vivi os últimos tempos tremendo. Medo! sim, medo!

Ontem fui na clínica, fui mais uma vez obrigada a interná-lo. Em casa ele não comia, eu na minha tremedeira, ia pro mercado e comprava 5, 6 tipos diferentes de carne pra tentar fazer ele comer, e nada. E carne era a última coisa que ele poderia comer! Um dia a veterinária disse, dá qualquer coisa, desde que ele coma….sim passei meses, com medo que ele não comesse..até que um dia ele resolveu fechar a boca pra sempre.

Não ronronava mais, estava esquelético e apático há vários meses. 
…..

Fui pra clínica mais uma vez, ele virado pra parede, era assim que ficava quando estava puto..afaguei, falei, fiz de tudo. Fui ao mercado e comprei a melhor e mais macia carne, sabia que era a última tentativa. Nada, nem cheirava.

Peguei nos meus braços e conversei longamente, bem como tinha feito com a Tina 4 dias antes. Ele ronronou pela primeira vez em meses, muito! conversamos, até que na dor do corpo doente, e minha dor da alma, dormiu. Fiquei assim, sem saber se o que tremia era eu ou ele. Acho que os dois. Só repetia, não fica com medo! Não precisa, vai dar tudo certo, tentando convencer a mim também! Depois de um tanto me levantei, botei ele na gaiolinha, ele miou alto, reclamando. Mais uma vez virou de costas pra parede deixando claro o desgosto.

Sabia que teria de tomar a decisão, passei muito tempo tentando aceitar isto. Roberta liga da clínica. Tinhamos duas opções, transfusão, que na verdade só prolongaria um pouquinho mais, e eutanásia. Só me sairam algumas palavras naquele momento: Tô indo praí, colocar meu gatinho pra dormir.

Uma angústia, quando chegou o momento, quem estava ali era a Nefrologista que faria o trabalho. Não falamos nada. Fui até a gaiolinha e disse: a gente vai se encontrar de novo, enquanto isto fica bem meu gatinho. Repeti várias vezes, ele ronronou bem baixinho, nem piscava mais. Deu o sonífero, e ele pelo menos passou a respirar melhor.

-Acho que ele morreu silvia,
-não ainda não.

Dei meu último beijinho, olhei mais uma vez aquela pintinha linda que tinha no queixo.

-Quer ficar pra última dose?
-Não!

Ela veio me abraçou e é claro, chorei muito, agradeci a todos, não é fácil pra ninguém. Tenho certeza.

Fui pro carro e ali fiquei por um bom tempo. A primeira pessoa é sempre a minha mãe. Mulher forte! Só queria que ela soubesse que eu tinha conseguido ser forte também. Xixa mandou mensagem, contei pra ela. Ela então me mandou uma foto dos filhos, que adoro!

-Uma foto pra ajudar a espantar a dor.

Fiquei dando voltas de carro, coloquei as pernas no mar e ali fiquei, pensando no dia lindo.

As duas coisas mais comoventes que ouvi vieram do meu irmão, quando contei sobre a Tina. Agradeci aquela última viagem de carro, 4000 quilometros, em que ele topou nos levar pra Porto Alegre, uma indiada..uma bela história.

Ele só disse:

-Que bom que deu tudo certo né?
-Sim deu tudo certo, mais uma vez fizemos o que deveria ser feito..

Da minha mãe:
-Eles te ajudaram a crescer bastante, podes ter certeza que fizeste o correto, a morte é muito melhor do que o sofrimento, demonstraste ser muito forte com tuas atitudes na perda dos teus companheiros.

Mãe, eu não tive escolha! pensei eu..

Hoje fui buscar as cinzas da tina e mandei cremar ruan. Agradeci poder trazer eles de volta pra junto de mim, porque era isto que eles queriam. Sempre digo, que o grande desejo da tina, era entrar dentro de mim, literalmente! É assim quando a gente ama desavergonhadamente, sem parâmetros!

Agora, nunca me perguntem porque eu não quis ser mãe, porque adotei, criei, cuidei por anos a fio, de seres que sequer falavam. Sim, eu fui muito mãe, sabendo que um dia provavelmente iria enterrar os meus filhos. E assim foi. Acho que as pessoas tem muito a descobrir sobre o que é amor incondicional. Eu também, mas asseguro, tenho medo..mas aprendo rápido.

Em algum sonho, eu tinha palavras muito mais bonitas pra dizer, talvez eu lembre. Só queria desprender da garganta este engasgo…

Doei todos remédios pra a clínica, eles ajudam muitos animais de rua, e deixei pra Roberta, a médica oficial dos meus filhos, um livro de um ingles que com a ajuda de um gato de rua, conseguiu ficar limpo das drogas. É o livro mais vendido na inglaterra.

Todos que tem animais, vão ter histórias lindas pra contar. Eu tive e continuarei tendo as minhas.


No fundo sei que o destino da tina e do ruan sempre estiveram ligados.. do início, e como vocês viram, até o final. Sim, até mesmo um gato e uma cachorra se completam! Um dia conto esta história. É belíssima!! Grande beijo,

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